terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Correndo com a perna quebrada


É interessante salientar que, entre os lobos, não importa o quanto esteja doente, não importa o quanto esteja acuada, o quanto esteja só ou enfraquecida, a loba persiste. Ela corre mesmo com a perna quebrada. Ela se aproxima dos outros à procura da proteção da matilha. Ela se esforça ao máximo para superar na espera, na astúcia, na velocidade ou na duração da vida aquilo que a esteja atormentando.
Ela dedicará todas as suas forças a respirar bem. Ela se arrastará, se necessário, igual ao patinho, de um lugar para o outro até encontrar o lugar certo, um lugar benéfico, em que possa se recuperar.

A principal característica da natureza selvagem é a persistência. A perseverança. Isso não é algo que se faça. É algo que se é, em termos naturais e inatos. Quando não temos condição de vicejar, seguimos adiante até podermos voltar a vicejar. Seja o nosso isolamento originado de um afastamento da nossa vida criativa, seja uma cultura ou uma religião que nos rejeitou, seja um exílio da família, um banimento de um grupo, seja a imposição de sanções a nossos movimentos, pensamentos e sentimentos, a vida selvagem profunda continua, e nós persistimos. A natureza selvagem não é natural de nenhum grupo étnico específico. Ela é a natureza essencial das mulheres do Daomé, dos Camarões e da Nova Guiné. Ela está nas mulheres da Letônia, dos Países Baixos, de Serra Leoa. Ela está no cerne das mulheres da Guatemala, do Haiti, da Polinésia. Digam o nome de um país. De uma raça. De uma religião. De uma tribo. Digam o nome de uma cidade, de uma aldeia, de um solitário posto fronteiriço. Todas as mulheres têm isso em comum: a Mulher Selvagem, a alma selvagem. Todas elas continuam a tatear em busca do selvagem e a segui-lo.

Por isso, se precisarem, as mulheres pintarão céus azuis nas paredes da prisão. Se a meada se queimou, elas fiarão mais. Se a colheita estiver destruída, elas farão outra semeadura imediatamente. As mulheres desenharão portas onde não houver nenhuma. E elas as abrirão e passarão por essas portas para novos caminhos e novas vidas. Como a natureza selvagem persiste e triunfa, as mulheres persistem e triunfam.

- Mulheres que correm com os lobos.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

A raiva
O pulso
O sonho
A consoante
A taça
Os seios
Saem todos juntos
Explodem puritanos pelo espaço
Paredes brancas
avermelham-se
A vulva vermelha
vira xícara de chá
afrouxa a chata
Um zelo zen
E parafraseando a Alanis: estou aqui, pra te lembrar da bagunça que você deixou quando resolveu deixar em suspenso a vida, as linhas, as taças, os cigarros, a mesa, o desejo. Está em suspenso, está guardado, virando ferida, criando pus. Quando for liberado, vai sair num jato. Uma vulva a jato.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

A gente faz declaração pra quem tá com a gente
nem sempre é quem merece
eu te amo é pra quem ouve

a vida atropela: escreve um poema
a vida eleva: escreve um poema
a vida pausa: escreve um poema
a vida dói: escreve poemas
a vida não dá um respiro:
o poema resiste.
vida tenta contemplar poemas
entre uma chuva e uma tempestade
entre um sorrisinho e uma palminha, uma sapequice e um colinho
a vida poema
são risquinhos
oxigênio

domingo, 22 de julho de 2018

Eu já não recebo mais carinhos
Beijo, preciso pedir
Amor eu imploro.
Estou na ilha da maternidade
A minha ilha.
Nadei até aqui, achei que o encontraria.
Aqui ele não está.
Estou sozinha
Carente
Obrigada por varrer o chão
Obrigada por lavar a louça
Mas o que eu preciso
É
De você
Em cima
De mim

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Sou A Mãe

Fui tirada da poesia
Do além
Das entrelinhas
Fui posta no real
No preenchimento real de um filho
Desci do bonde
Tô na Terra
Onde as horas são curtas
Não há taças de vinho
Há fraldas e refeições apressadas
Não divago
Dou mamá
Não durmo
Acalento
Não sou eu
Sou a mãe