sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Não faço poesia
Isso não é poesia
É desabafo no braço
Que traço no papel

Não preciso que leia
Só preciso do silêncio
Preciso do vento

Vendaval de vontades
Cafeína álcool tesão
Sim, por que não?
Uma casa destelhada de saudade


segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Só depois de subir o poço e ter muita sujeira debaixo das unhas cansadas é que posso voltar a sonhar com trilhas e céus. A questão é: lavo as mãos para voltar a sujar ou continuo subindo sem pausar? Já vejo o ar fresco, sinto no meu cabelo, mas é que pausando eu tento respirar o ar lá de cima, e me engano. Tento lembrar quem eu sou e falta ar fresco. Vou guardar toda essa sujeira debaixo da unha, pra saber o caminho da subida, caso eu desça.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Não vai garimpar na minha alma.
Não levará meu ouro.
Na minha alma, meu tesouro.
Debaixo dessa camada tem eu.
Eu de anos atrás.
Eu de hoje.
Eu.

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Uma tristezinha suave me bate
Quando penso em tudo o que estaria vivendo
E essa mesma tristeza me acolhe
Quando penso que desejar viver
É um passo pra se viver

Tenho muitos dias pra poder flanar
Flanar pela vida
De cuca fresca

terça-feira, 23 de abril de 2019

Nossos primeiros dias...
Nosso primeiro dia parece um filme da vida de outra pessoa da qual eu sinto inveja.
Nosso...
Tinha algo lá. Os minutos, aquelas horas, eu acho... nossas últimas melhores horas.
Varridas, lavadas, com cloro. Estão quase desaparecendo.
Os beijos, as conversas, a espera, os 12 minutos entre a minha casa e a sua, seu olhar. Vou lembrar pra sempre até hoje.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Queria um remédio
Um anti-você
Uma vacina
Um esquecimento
Porque você me enlouquece

segunda-feira, 25 de março de 2019

Não há Amanda
Não aquela lá
Talvez a versão B
A que nasceu agora
Quero de novo ser aquela
A Amanda A

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Correndo com a perna quebrada


É interessante salientar que, entre os lobos, não importa o quanto esteja doente, não importa o quanto esteja acuada, o quanto esteja só ou enfraquecida, a loba persiste. Ela corre mesmo com a perna quebrada. Ela se aproxima dos outros à procura da proteção da matilha. Ela se esforça ao máximo para superar na espera, na astúcia, na velocidade ou na duração da vida aquilo que a esteja atormentando.
Ela dedicará todas as suas forças a respirar bem. Ela se arrastará, se necessário, igual ao patinho, de um lugar para o outro até encontrar o lugar certo, um lugar benéfico, em que possa se recuperar.

A principal característica da natureza selvagem é a persistência. A perseverança. Isso não é algo que se faça. É algo que se é, em termos naturais e inatos. Quando não temos condição de vicejar, seguimos adiante até podermos voltar a vicejar. Seja o nosso isolamento originado de um afastamento da nossa vida criativa, seja uma cultura ou uma religião que nos rejeitou, seja um exílio da família, um banimento de um grupo, seja a imposição de sanções a nossos movimentos, pensamentos e sentimentos, a vida selvagem profunda continua, e nós persistimos. A natureza selvagem não é natural de nenhum grupo étnico específico. Ela é a natureza essencial das mulheres do Daomé, dos Camarões e da Nova Guiné. Ela está nas mulheres da Letônia, dos Países Baixos, de Serra Leoa. Ela está no cerne das mulheres da Guatemala, do Haiti, da Polinésia. Digam o nome de um país. De uma raça. De uma religião. De uma tribo. Digam o nome de uma cidade, de uma aldeia, de um solitário posto fronteiriço. Todas as mulheres têm isso em comum: a Mulher Selvagem, a alma selvagem. Todas elas continuam a tatear em busca do selvagem e a segui-lo.

Por isso, se precisarem, as mulheres pintarão céus azuis nas paredes da prisão. Se a meada se queimou, elas fiarão mais. Se a colheita estiver destruída, elas farão outra semeadura imediatamente. As mulheres desenharão portas onde não houver nenhuma. E elas as abrirão e passarão por essas portas para novos caminhos e novas vidas. Como a natureza selvagem persiste e triunfa, as mulheres persistem e triunfam.

- Mulheres que correm com os lobos.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

A raiva
O pulso
O sonho
A consoante
A taça
Os seios
Saem todos juntos
Explodem puritanos pelo espaço
Paredes brancas
avermelham-se
A vulva vermelha
vira xícara de chá
afrouxa a chata
Um zelo zen
E parafraseando a Alanis: estou aqui, pra te lembrar da bagunça que você deixou quando resolveu deixar em suspenso a vida, as linhas, as taças, os cigarros, a mesa, o desejo. Está em suspenso, está guardado, virando ferida, criando pus. Quando for liberado, vai sair num jato. Uma vulva a jato.