segunda-feira, 25 de março de 2019

Não há Amanda
Não aquela lá
Talvez a versão B
A que nasceu agora
Quero de novo ser aquela
A Amanda A

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Correndo com a perna quebrada


É interessante salientar que, entre os lobos, não importa o quanto esteja doente, não importa o quanto esteja acuada, o quanto esteja só ou enfraquecida, a loba persiste. Ela corre mesmo com a perna quebrada. Ela se aproxima dos outros à procura da proteção da matilha. Ela se esforça ao máximo para superar na espera, na astúcia, na velocidade ou na duração da vida aquilo que a esteja atormentando.
Ela dedicará todas as suas forças a respirar bem. Ela se arrastará, se necessário, igual ao patinho, de um lugar para o outro até encontrar o lugar certo, um lugar benéfico, em que possa se recuperar.

A principal característica da natureza selvagem é a persistência. A perseverança. Isso não é algo que se faça. É algo que se é, em termos naturais e inatos. Quando não temos condição de vicejar, seguimos adiante até podermos voltar a vicejar. Seja o nosso isolamento originado de um afastamento da nossa vida criativa, seja uma cultura ou uma religião que nos rejeitou, seja um exílio da família, um banimento de um grupo, seja a imposição de sanções a nossos movimentos, pensamentos e sentimentos, a vida selvagem profunda continua, e nós persistimos. A natureza selvagem não é natural de nenhum grupo étnico específico. Ela é a natureza essencial das mulheres do Daomé, dos Camarões e da Nova Guiné. Ela está nas mulheres da Letônia, dos Países Baixos, de Serra Leoa. Ela está no cerne das mulheres da Guatemala, do Haiti, da Polinésia. Digam o nome de um país. De uma raça. De uma religião. De uma tribo. Digam o nome de uma cidade, de uma aldeia, de um solitário posto fronteiriço. Todas as mulheres têm isso em comum: a Mulher Selvagem, a alma selvagem. Todas elas continuam a tatear em busca do selvagem e a segui-lo.

Por isso, se precisarem, as mulheres pintarão céus azuis nas paredes da prisão. Se a meada se queimou, elas fiarão mais. Se a colheita estiver destruída, elas farão outra semeadura imediatamente. As mulheres desenharão portas onde não houver nenhuma. E elas as abrirão e passarão por essas portas para novos caminhos e novas vidas. Como a natureza selvagem persiste e triunfa, as mulheres persistem e triunfam.

- Mulheres que correm com os lobos.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

A raiva
O pulso
O sonho
A consoante
A taça
Os seios
Saem todos juntos
Explodem puritanos pelo espaço
Paredes brancas
avermelham-se
A vulva vermelha
vira xícara de chá
afrouxa a chata
Um zelo zen
E parafraseando a Alanis: estou aqui, pra te lembrar da bagunça que você deixou quando resolveu deixar em suspenso a vida, as linhas, as taças, os cigarros, a mesa, o desejo. Está em suspenso, está guardado, virando ferida, criando pus. Quando for liberado, vai sair num jato. Uma vulva a jato.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

A gente faz declaração pra quem tá com a gente
nem sempre é quem merece
eu te amo é pra quem ouve

a vida atropela: escreve um poema
a vida eleva: escreve um poema
a vida pausa: escreve um poema
a vida dói: escreve poemas
a vida não dá um respiro:
o poema resiste.
vida tenta contemplar poemas
entre uma chuva e uma tempestade
entre um sorrisinho e uma palminha, uma sapequice e um colinho
a vida poema
são risquinhos
oxigênio

domingo, 22 de julho de 2018

Eu já não recebo mais carinhos
Beijo, preciso pedir
Amor eu imploro.
Estou na ilha da maternidade
A minha ilha.
Nadei até aqui, achei que o encontraria.
Aqui ele não está.
Estou sozinha
Carente
Obrigada por varrer o chão
Obrigada por lavar a louça
Mas o que eu preciso
É
De você
Em cima
De mim