quinta-feira, 2 de junho de 2016

Pescaria

A melancolia nos faz ver cores,
estar cores,
uma paleta errante.
Há quem diga que o azul é melancólico,
mas será que o vermelho é melancólico?
Um pouco de vermelho numa paisagem azul.

Vermelho enquanto sangue,
vermelho-órgão,
o vermelho que é rosa,
o vermelho enquanto faca cravada que gira.
O vermelho-azulejo não é melancólico.
O vermelho-maçã, mesmo que envenenado, não é melancólico.
O vermelho maçã do seu rosto não é melancólico
O vermelho-rosa da geleia de maçã não é vermelho.
Mas o vermelho que o Sol foi, virou laranja, amarelo, e se pôs.

Melancólica é essa memória,
melancólico é quando o sol desce e os bichos abrem os olhos,
que dilatam pra enxergar a cor fria do céu.
Melancólica é a lua que teima em aparecer de dia:
disputa o céu com o sol, ela, feminina.
- sabe a lua da sua melancolia?

Melancólico é jogar uma vara pra pescar o futuro,
e a corda fisgar a saudade...
- saudade, volta por mar, se não morre sem ar





sexta-feira, 1 de abril de 2016

Nem luxo, nem lixo (prefácio para o ano de 2006)

Ano doido, ano maluco.
Fiquei bêbada
Me apaixonei
Fui correspondida
Depois não
Chorei
Bebi
Bebi
Chorei
chorei
Gritei
Dancei
Falei bobeira
Falei até coisas interessantes
Enlouqueci
Morri de medo
O planeta me puxou pra dentro
Pegou meu óculos! Mas...
Me devolveu
Sofri
Sofri
Cantei
Cantei
E fiz sexo, bastante.
Me recuperei...
Quer dizer, ainda não.
. . . . . . r
. . . . . or
. . . . .ior
. . . .rior
. . .erior
. . terior
. nterior
Anterior
Nenhuma Das Anteriores

Fraude de 24 horas

Nenhuma Das Próximas
Próxima
Próxim
Próxi
Próx
Pró
Pr
P
E quando na moto, enquanto eu abraço aquele abraço solto, vou inventando coisas na cabeça, quando está um sol baixinho, é uma coisa, quando está lá aquela lua estalada, é outra coisa.
Inventei na mente que as luzes da cidade são pessoas, e a velocidade que elas somem é como quando as pessoas passam na nossa vida. E elas passam rápido demais. Mas as luzes lá do fundo passam mais devagar. Porque elas estão profundamente na cena.
Invento coisas assim, sem sentido, enquanto arrumo meu cabelo e volto minha mão no seu bolso. Se lembrasse de todas as coisas, escreveria. Se tomasse nota da mente, saberia. Mas não tomo, deixo fluir, como fluem as luzes da cidade, perto, e lá no fundo.

segunda-feira, 14 de março de 2016

O que é essa coisa que bate e vira poesia?
Que entra e quer sair bonito?
Que pergunta e a resposta é música
Um verso que lembra montanha
E chuva, e sono, e beijo, e solidão?

Um pedaço de momento poético
Seja em Minas, em casa ou aqui dentro
Um papel em branco que me leva pro alto
Da árvore úmida e fresca
De orvalho, ou da tarde que cai.

O sol quando se põe
O Milton quando rima
Café quando está quente
O céu quando laranja
Eu quando sou

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Olha pras unhas, pro papel, sabe bem tudo o que gostaria de escrever, só que queria esquecer antes de por no papel. Isso de trazer da mente para os dedos dói. Quem deveria doer era o papel, mas ele não está sendo espancado agora. Quem está sendo espancada é a mente. Do tipo que deixa marcas debaixo da roupa, você não vai ver se ela for comprar pão.
Minha amiga secreta prefere papel e caneta, com certeza. Que doa no papel, que sofra o papel, e que o diabo o carregue.


segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Tem uma hora do dia que eu gostaria de estar numa salinha confortável, com muito café quente numa caneca, ouvindo um silêncio inspirador, e espancando o teclado num texto formidável, que juntasse militância, ficção, arquivos mentais de brainstorms e anotações rápidas de boas ideias.
Só que nessa hora eu estou no meio do trabalho, sem café, sem silêncio - no máximo com o fone no ouvido pra ninguém perturbar - e meio milhão de e-mails estourando na caixa de entrada, me lembrando das tarefas que pagam minha casa.
As tarefas que pagam minha casa não saciam minha mente. Saciam minha mente textos vomitados, ideias mirabolantes, ficções e monólogos internos. Escapes no meio da tarde satisfazem às vezes, mas sei que são comida artificial perto desse banquete que meu cérebro gostaria de escrever...